Comparação entre a poesia de Safo e o poema italiano sobre a Batalha de Mentana

Texto de Dionis Aparecida de Oliveira Seguro e Giovana Seguro



Safo, Ode a Anactória.

Dizem: O renque de carros ou de soldados
ou de navios é sobre a terra negra
a suprema beleza. Digo: é aquilo que se ama.
Muito fácil fazer isto compreensível
a todos: - Helena, a que superou
toda beleza de humanos, ao mais nobre marido
deixou atrás e foi a Tróia num navio.
Nem da filha nem dos pais queridos
nada se recordou, mas seduziu-a Cípris.
Nas mãos de Cípris, é maleável a mente.
Eros faz nosso pensamento revirar-se
leve e faz-me lembrar agora Anactória longe.
Quisera eu ver o encanto de seu andar
e a luz brilhante de seu rosto,
não carros da Lídia ou guerreiros com armas.

(Tradução de Jaa Torrano)


Giosuè Carducci, Para o quinto aniversário da batalha de Mentana.

Todo ano quando lúgubre
O instante da derrota
De Mentana nos plácidos
Montes vê-se voar,
Montes, plainos têm frêmitos
E formidavelmente
Nos momentâneos túmulos
Mortos vão perfilar.

Não são caveiras túrpidas,
São altas formas, belas,
O róseo do crepúsculo
Envolve-as de um véu.
Pelas feridas trêmulas
Riem virgens estrelas,
Nas suas tranças prendem-se
As nuvens que há no céu.

Quando das mães os hálitos
Gemem no leito insone,
Quando as mulheres núbiles,
Pensam no morto amor,
Nos erguemos do Tártaro,
Brancos peitos partidos,
Para saudar-te, ó Itália,
E te erguer o louvor.

Qual no caminho íngreme
Jogava o cavaleiro
O verde manto sérico
De sua dama ao pé,
Vê, nossa alma atiramo-las
Sorrindo ao fado negro,
E vives olvidando-te
Dos mártires até.

A outros, ó doce Itália,
Cede os sorrisos teus,
Mas os mortos esquecem-se
Do que devem amar?
Mas Roma é nossa: os víndices
Teus, vê, seremos nós,
Voemos ao Capitólio
Mas para triunfar.

E vai assim nubívaga
A morta companhia,
Se passa há nos itálicos
Um frêmito fatal.
Pelos palácios calam-se
O clarão e a harmonia,
E surdo um raio escuta-se
Pelo alto Quirinal.

E os capitães da indústria
Que à cidade de Graco
Trouxeram panças nítidas
De um ínclito esplendor
Dizem: O tempo irrita-se,
Enchem logo os sacos
Depois venha o Dilúvio
E seja como for.
(trad. Jamil Haddad)

A poesia antiga nos oferece um vasto panorama sobre os valores, as emoções e as visões de mundo das sociedades que as produziram. Neste trabalho, analisaremos os pontos de contato entre a Ode a Anactória, de Safo, representante da lírica grega, e o poema italiano Para o quinto aniversário da batalha de Mentana, de Giosuè Carducci, cuja temática remonta aos ideais patrióticos e à memória dos mortos.

Temática e Enfoque

Um ponto de convergência entre as duas obras é o tratamento da ausência e da idealização. Em Ode a Anactória, Safo celebra a memória da amada ausente. A beleza e a essência de Anactória transcendem a realidade física, simbolizando o que há de mais valioso para o eu-lírico: “Quisera eu ver o encanto de seu andar / e a luz brilhante de seu rosto”. Aqui, a ausência é preenchida pelo amor e pela beleza subjetiva, que superam qualquer valor material ou militar, como os carros da Lídia ou os guerreiros em batalha.
No poema italiano, a ausência é a dos mortos que pereceram na batalha de Mentana. Eles são idealizados como figuras sublimes e belas, envoltas por elementos naturais e divinos, como “o róseo do crepúsculo” e “as virgens estrelas”. Assim como Safo supera o tangível ao exaltar o amor, o poema italiano exalta o sacrifício como algo eterno e fundamental para a identidade da Itália. Ambos os textos elevam a ausência a um plano simbólico que transcende o mundano.

Tema da Morte e da Memória

Em Para o quinto aniversário da batalha de Mentana, o autor reflete sobre a morte, a batalha e o sacrifício. Ele recorda a batalha de Mentana de 1867, um evento histórico crucial para a unificação da Itália. Os mortos são referidos como uma “tropa morta”, e a guerra e a memória daqueles que morreram são evocadas como uma força eterna, presente em forma de espírito e lenda. A memória é preservada, e a morte está ligada à ideia de sacrifício e ao orgulho nacional. É lamentada a falta de reconhecimento da Itália para com esses mortos.
Em Ode a Anactória, Safo não trata de mortes de guerra ou sacrifícios patrióticos, mas de uma perda pessoal e emocional. A memória da amada Anactória é o foco do poema. Aqui, a morte é simbólica, representando a ausência da amada e o sofrimento causado pela separação. A saudade e o desejo tornam-se o centro da narrativa, sugerindo que a verdadeira beleza e o significado da vida estão na experiência emocional.

O Papel da Mulher

No poema italiano, a mulher não é uma presença central, mas é representada indiretamente pela figura de Roma, a “dolce Italia” personificada como mãe-pátria a ser defendida e honrada. Roma/Itália é retratada como algo a ser protegido e reverenciado pelos homens que morreram por ela. A mulher, neste caso, é vista como uma metáfora para a pátria, evocando devoção e sacrifício nacional.
Em contrapartida, Safo coloca a mulher, Anactória, no centro de sua reflexão poética. A relação com ela não é de sacrifício ou guerra, mas de um amor profundo e inatingível. A figura feminina é um catalisador da emoção e do desejo, representando a verdade emocional e a profundidade do amor, em oposição à grandiosidade da história ou das batalhas.

Estilo e Tom
O estilo de Para o quinto aniversário da batalha de Mentana é marcadamente lírico e simbólico, com forte carga modernista. O poema alterna entre a visão sombria da morte e uma ideia de ressurreição ou persistência eterna através da memória. As imagens, como “a tropa morta” e “a morte que mais amaram na vida”, evocam sofrimento e orgulho. O tom é grave e solene, refletindo um forte senso de dever e sacrifício pela pátria.
Em Ode a Anactória, o estilo de Safo é mais pessoal, íntimo e sensorial. A linguagem é simples e direta, mas poderosa, enfatizando o desejo e a saudade com uma elegância que amplifica o sentimento de perda. O tom é nostálgico e melancólico, como uma elegia que celebra a beleza e o amor perdidos.

Visão de Grandeza e Conquista

No poema italiano, a grandeza está ligada à luta, ao sacrifício e à vitória simbólica sobre a morte. Os mortos são celebrados como heróis que permanecem como modelos de coragem e lealdade à pátria. A vitória é vinculada ao futuro da nação e à memória dos que se sacrificaram.
Em Safo, a grandeza está na emoção, no desejo e no amor. A beleza feminina é a mais alta forma de grandeza, mais significativa do que as vitórias militares ou materiais. A busca por Anactória é uma conquista emocional, onde o poeta expressa um desejo de reviver momentos de prazer e felicidade passados.

Conclusão

Os dois poemas, embora diferentes em contexto histórico, forma e estilo, compartilham uma profunda reflexão sobre a memória, a perda e o amor. Carducci olha para o sacrifício pela pátria e a morte em batalha, enquanto Safo reflete sobre a perda de um amor idealizado. Ambos os poetas usam a nostalgia e a saudade como ferramentas poderosas para explorar o significado da vida e da experiência humana. Porém, enquanto Carducci fala de uma grandiosidade coletiva e histórica, Safo se concentra na beleza e na intimidade do amor pessoal e da memória emocional.

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