O que diz a ciência sobre os mitos de Cila e Caribdis na Odisseia?
texto de autoria de Evelize Majeski
Por trás de todo mito existe uma verdade?
“Cheios de angústia, portanto, iniciamos a estreita passagem, por termos Cila de um lado e Caribde divina do oposto, que a água salgada do mar por maneira terrível chupava. Ao expeli-la, era como caldeira nas chamas vivazes, a revolvê-la com grande barulho. Para o alto era a espuma dos dois escolhos jogada, voltando a cair sobre os picos,porque, quando a água salgada do mar deste modo absorvia, aparecia ela toda por dentro revolta; à sua volta a pedra soava terrível e o fundo anegrado se via da cor da areia.”(1)
O trecho da Odisseia acima citado, reporta o momento em que Odisseu e seus homens navegam pelo Estreito de Messina, entre as atuais regiões italianas da Sicília e da Calábria. No excerto, Odisseu narra o momento em que deve atravessar o estreito, atentando-se à presença de dois monstros marinhos, Cila, personagem com várias cabeças e fileiras de dentes que se alimentava de marinheiros, e Caribdis, que tudo devorava ao aspirar e cuspir as águas do mar, e deve decidir por qual ponto irá passar, calculando os riscos. O trecho reproduz um imaginário comum à época das navegações, o mito, que surge de uma necessidade de representar, organizar e legitimar as relações do homem com a natureza (Diegues, 1998) (2). Segundo Morin:
(...) são narrativas que descrevem a origem do mundo, a origem do homem, o seu estatuto e a sua sorte na natureza, as suas relações com os deuses e os espíritos. Mas os mitos não falam só da cosmogênese, não falam só da passagem da natureza à cultura, mas também de tudo o que concerne a identidade, o passado, o futuro, o possível, o impossível, e de tudo o que suscita a interrogação, curiosidade, a necessidade, a aspiração. Transformam a história de uma comunidade, cidade, povo, tornam-na lendária, e mais geralmente tendem a desdobrar tudo que acontece no nosso mundo real e no nosso mundo imaginário para os ligar e os projetar juntos no mundo mitológico. (Morin, 1986:150 em Diegues, 1998)
Dessa forma, os mitos representam a relação do homem com outros homens e com a natureza em uma determinada época. Além disso, o mito se consolida como uma estratégia de aprendizado, pois tal como as fábulas, apontam para escolhas e consequências, tal qual Odisseu, que teve que escolher por onde seria mais seguro navegar. O poeta Virgílio já se inspirara na obra homérica para alertar que: "melhor é, com grande demora e longa volta, contornar Pachino e toda a Trinácria"(4). Embora a Odisseia esteja repleta de histórias míticas, é interessante notaras passagens fabulosas especialmente em ilhas. Como se percebe, o interesse pelo microcosmo insular é antigo, e a importância desse ambiente ultrapassa o campo de estudos biológicos, como aqueles de Darwin que contribuíram para entender os conceitos de especiação e evolução, e atinge áreas da Psicologia, que buscam entender porque desde sempre as ilhas são associadas a ideias de refúgio e paraíso. Antropologicamente, o interesse insular se volta para questões socioculturais, e entendimento do “outro”. Já na literatura, todos esses conceitos são fortemente explorados principalmente a partir do início das navegações, momento em que os homens estavam desbravando frequentemente lugares antes nunca explorados e precisavam contar suas experiências nestes locais. Sendo assim, se o mito surge explicar uma realidade, afinal, qual era a realidade que estava sendo representada no trecho mencionado? A explicação está nos dados científicos atuais sobre a região.
O Estreito de Messina é um estreito no mar mediterrâneo que conecta duas porções de mar: ao norte o Mar Tirreno e ao Sul o Mar Jônico. Em áreas afastadas do estreito, o mar Tirreno é mais quente, menos salino e consequentemente menos denso que o mar Jônico. Segundo Defanti (1940)(3), apenas metade das águas do mar ao sul alcançam o mar Tirreno, por conta de uma barreira do solo, e por possuírem características físicas e químicas diversas essas águas não se misturam imediatamente. Relembrando as características sobre densidade, essas águas ao se encontrarem, passam a ocupar alturas diferentes das que ocupavam inicialmente. Ocorre um movimento como o de convecção: águas da superfície descem enquanto águas do fundo sobem. Essa movimentação provoca instabilidade dinâmica e turbulências, que se desenvolvem tanto no sentido horizontal, formando ondas, quanto no vertical, formando redemoinhos(3), o que por si só já é capaz de explicar as águas agitadas do estreito, porém mais adiante veremos que este não é o único fator, pois os redemoinhos são favorecidos pelas irregularidades do fundo.
Imagem 2. Esquema sobre a movimentação das águas no estreito.
Tais redemoinhos formam-se em pontos específicos. Específicos como os pontos que Odisseu teria que desviar para não se deparar com Cila ou Caribdis. Caribdis em si parece a própria personificação desses movimentos dec onvecção, como os descritos na imagem 2. O mais interessante nesse movimento de águas chamado de upwelling é que as águas do fundo sobem trazendo alguns animais pelágicos(3), que eventualmente são considerados bizarros, por possuírem formas muito diferentes de animais marinhos mais conhecidos. No entanto, quando se trata do Estreito de Messina, “o buraco é bem mais embaixo”. Pesquisadores italianos recentemente descobriram que sob o Mar Jônico existem fraturas profundas. O estudo intitulado “Lower plate serpentinitediapirism in the Calabrian Arc subduction complex”, conduzido por pesquisadores do Instituto de Ciências Marinhas de Bolonha, da Universidade de Parma, do Ingv e do Geomar (Alemanha) e publicado na Nature Communications, permitiu observar de perto blocos do antigo oceano, revelando os processos que levaram à sua formação(5). O estudo multidisciplinar integra imagens acústicas do subsolo, dados geofísicos e amostras de sedimentos adquiridos durante expedições científicas, e possibilitou identificar as falhas, reconstruir sua geometria e descobrir anomalias geoquímicas nos sedimentos ligadas à presença de fluidos profundos. Esta descoberta terá importantes implicações para entender melhor como se formam as cadeias montanhosas e como esses processos estão ligados ao lento, mas progressivo afastamento da Sicília em relação à Calábria e aos fortes terremotos históricos registrados nessas regiões, como o Sismo de 1908 e oTerremoto de 2022(5).
Imagem 3. Destruições causadas pelo grande Sismo de 1908
Além dos registros de vibração da superfície terrestre, existem pelo menos três registros de navios arremessados contra as rochas, nos anos de1848, 1886, 1931(6). E, ainda, no cemitério submerso das águas de Mortelle, Messina, na Sicília, foram descobertos 17 grandes destroços de navios(8). Em resumo, a sismicidade da região aliada ao encontro de águas tão diferentes no estreito que foram as responsáveis por tantos naufrágios, e que acima de tudo que ajudaram a manter viva a lenda dos dois monstros descritos por Odisseu.
Notas:
1. Odisseia / Homero; tradução e prefácio Carlos Alberto Nunes. - [25. ed.] -Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2015.
2. Diegues, Antônio Carlos Sant'Ana. Ilhas e mares: simbolismo eimaginário. São Paulo: Hucitec, 1998.
3. Stretto di Messina. https://it.wikipedia.org/wiki/Stretto_di_Messina acessoem 18/10/2024.
4. I continui naufragi tra Scilla e Cariddi mantennero sempre viva la leggendadei due mostri https://www.strettoweb.com/2020/05/scilla-cariddi-naufragi-stretto-messina/1010525/ acesso em 18/10/2024.
5. Una «finestra» sotto il Mar Ionio, ecco perché la Sicilia si allontana https://www.avvenire.it/attualita/pagine/terremoti-scoperta-finestra-sotto-lo-ionioacesso em 18/10/2024.
6. I continui naufragi tra Scilla e Cariddi mantennero sempre viva la leggendadei due mostri https://www.strettoweb.com/2020/05/scilla-cariddi-naufragi-stretto-messina/1010525/ acesso em 18/10/2024.
7. Le meraviglie dello Stretto di Messina: alla scoperta dei relitti sommersi (II°parte) https://www.letteraemme.it/le-meraviglie-dello-stretto-di-messina-alla-scoperta-dei-relitti-sommersi-ii-parte/ acesso em 18/10/2024.
Imagem 1. https://museudomar.com.br/2017/10/31/a-odisseia/ acessado em18/10/2024.
Imagem 2. https://it.wikipedia.org/wiki/Stretto_di_Messina acesso em18/10/2024.
Imagem 3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Messina_de_1908

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