Aproximações entre Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo e As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi
texto de autoria de Jennifer da Silva Moreira e Aurora Alves
As obras Os trabalhos e os Dias, de Hesíodo e As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, foram escritas em momentos históricos muito distintos e voltadas para públicos também distintos. No entanto, é possível perceber algumas similaridades entre elas. Esse trabalho tem como objetivo analisar o caráter instrutivo presente nos dois escritos e os modos por meio dos quais eles, de alguma forma, se aproximam enquanto textos que valorizam a educação, obtida por meio da instrução, enquanto ocasiões favoráveis para a transformação dos sujeitos e para a humanização.
Segundo Melo (2018), Hesíodo, ao escrever Os Trabalhos e Os Dias, entre fins do século VIII a.C. e inícios do século VII a. C., aborda a relação entre trabalho, virtude e justiça. Foram as necessidades materiais do mundo rural de seu tempo que o motivaram a defender o trabalho enquanto um meio de transformação social e da superação do contexto em que o camponês vivia. Ao promover os valores do fazer, o autor se diferenciou da perspectiva tradicional que apreciava o guerreiro aristocrata, cuja honra era obtida em campos de batalha e destacou um novo herói, que surge por meio do trabalho. Tal apreciação do camponês permitiu o protagonismo de uma voz silenciada em sua sociedade.
Em Os Trabalhos e os Dias, Hesíodo revela que já não é era mais possível calar as vozes dos atores dos setores populares da sociedade, ocultados por Homero em seus poemas Ilíada e Odisseia em favor dos valores e da superioridade social dos aristocratas. Ele encontrou nos setores populares inspiração para sua poesia e denunciou as duras condições de vida dos camponeses, as realidades sociais fulcralmente distintas resultantes da divisão entre aristocracia e campesinato (Melo, 2023, p. 1276).
Portanto, Hesíodo denunciou desigualdades e injustiça social e trouxe uma compreensão de que apenas por meio do trabalho se pode alcançar a virtude e o processo de transformação social, pois ele via o trabalho enquanto uma prática humana e agente de transformação (Melo, 2023).
Já Collodi, ao escrever a história de Pinóquio apresenta o trabalho e o dinheiro enquanto assuntos recorrentes. De acordo com Meira (2018), o autor, ao narrar as aventuras de Pinóquio, descreveu um processo de humanização que se dá por meio do desenvolvimento da moralidade, da autonomia e da responsabilidade com o outro. Sendo o processo de humanização bastante semelhante ao processo educativo. Além disso, ao retratar a ganância e outros vícios, Collodi faz muitas críticas à sociedade de sua época, ao comportamento da sociedade italiana e sua insensatez.
Desse modo, percebem-se já algumas aproximações entre as obras aqui abordadas, tanto no que diz respeito ao papel transformador e humanizador da educação, quanto nas críticas e denuncias que elas fazem de suas sociedades e a apreciação do trabalho como meio através do qual é possível haver uma aproximação das virtudes.
Melo (2023) afirma que Hesíodo foi responsável por dar à poesia uma tonalidade pedagógica ao trazer ensinamentos vinculados às virtudes de ordem ética e moral, os quais considerava essenciais para uma vida honrada e digna. Cabe aqui ressaltar que ao atribuir valor à virtude obtida não pelo nascimento, mas pelo trabalho ele trouxe visibilidade aos camponeses.
Assim, o trabalho duro, exaustivo e fatigante do camponês foi alçado como elemento humanizador do homem, equiparando-se à coragem, bravura e ousadia do guerreiro aristocrata (Melo, 2023, p. 1296).
A motivação de Hesíodo, para escrever essa obra, conforme declara Melo (2023), foi a disputa com seu irmão Perses pela divisão das terras herdadas de seu pai. Por isso, ele nomeou seu irmão nos escritos e o apresentou como um discípulo que precisava de uma formação em boas práticas e trouxe conselhos e ensinamentos morais com o intuito de ensinar a seu irmão como ele não respeitava a ordem posta e buscava caminhos tortuosos. Ao se referir ao modo como Hesíodo apresenta seu irmão, Colombani (2020) declara que ele o chama de jovem, infantil, ingênuo e menino e, com isso, o mostra como alguém que ainda não desenvolveu a capacidade de discernir, alguém que está no estado mais propício para receber ensinamentos.
Segundo Melo (2023), esse caráter pessoal adquiriu uma dimensão coletiva na medida em que ele retratou denunciou e criticou a sociedade em que vivia.
Essa inspiração na própria trajetória de vida também pode ser notada em Collodi, quando escreveu a história de Pinóquio, uma vez que ele retratou a fome, pobreza e falta de dinheiro em um período que, conforme relata Meira (2018), ele também vivia pessoalmente um momento de dificuldade financeira, uma vez que estava endividado, era, com frequência, pressionado por credores e escrevia com o intuito de receber algum dinheiro para sobreviver.
Meira (2018) destaca que Collodi escreveu Pinóquio com o objetivo de ganhar algum dinheiro e, ao contrário de outros contos de fadas, ele escreveu essa história especificamente para leitores crianças. Além disso, as aventuras do menino de madeira foram escritas por Carlo Collodi no formato de folhetim e seus capítulos saíram de 1881 a 1883 em uma publicação semanal infantil do Giornale per i Bambini, de Roma.
Collodi, inicialmente, não tinha planos de estender em tantos capítulos o folhetim, porém, por exigência das crianças leitoras, que o pressionavam por meio de cartas enviadas à redação do jornal, o autor dava sequência às aventuras do boneco. Ou seja, Collodi não criou toda a trajetória do seu personagem para caber num único volume, com uma moral de história definida e não tinha destino selado para o boneco de madeira. Tudo isso foi sendo construído devagar, por exigência dos leitores. E, talvez, por isso seja uma história tão rica, com tantas possibilidades de lições (Meira, 2018, p. 395).
Ao escrever diretamente para o público infantil, Collodi se mostrou alguém que pensava na infância e no possível aprendizado que as crianças teriam por meio da leitura. Sobre esse caráter instrutivo da obra, Meira (2018) ressalta que Pinóquio se encontra em um processo de amadurecimento e, por meio de suas escolhas, revela seus conflitos morais. É por meio da superação, do enfrentamento das dificuldades e obstáculos em seu caminho que ele aprende o que é necessário para que se torne um ser humano mais digno. Logo, é justamente o ato ignorar conselhos e fazer tudo o que sente vontade, causando confusões, que propicia o tom moralizante de suas aventuras.
Ambas as obras aqui mencionadas foram escritas a partir de inspirações vindas da trajetória de seus autores. Elas valorizam o trabalho e as virtudes e trazem ensinamentos que têm por objetivo instruir, mostrar o melhor caminho para o desenvolvimento humano. Outra característica presente em ambas as obras é a crítica às suas sociedades e a apreciação dos valores daqueles que apesar de pouco dinheiro ou de não pertencerem a famílias nobres podem ser dignos e virtuosos. Por fim, há, em ambas, a presença da compreensão de que por meio do trabalho e da educação é possível haver transformações sociais importantes. Logo, a educação é vista enquanto uma ocasião propícia para a consolidação de uma sociedade melhor.
O que a história do Pinóquio tem a ver com um poema grego antigo escrito entre os séculos VIII e VII a. C.?
O poeta grego antigo Hesíodo e Carlo Collodi, autor de Pinóquio viveram em épocas muito distintas, mas curiosamente é possível encontrar aproximações entre suas obras. Ao escrever Os Trabalhos e os Dias, Hesíodo se inspirou em um conflito com seu irmão Perses pela herança deixada por seu pai para orientar seu irmão e também a sociedade grega sobre o valor do trabalho. Pois, na época os virtuosos eram os heróis, nascidos com o destino de serem poderosos, seus feitos se resumiam a conquistas em batalhas e não tinham relação com o trabalho.
Já Collodi, que se encontrava “sem um tostão no bolso” quando escreveu As Aventuras de Pinóquio, conta as aventuras de um boneco de madeira construído com o objetivo de dar algum lucro financeiro para seu pai. Do mesmo modo, Collodi esperava que sua publicação lhe rendesse algum dinheiro. Na história, o boneco vive aventuras que o orientam sobre o valor da moralidade, da autonomia e da responsabilidade com outro. Esses ensinamentos também pretendiam criticar a sociedade e o modo como valorizava a riqueza e futilidades.
Portanto, ambos se inspiraram em suas próprias vivências para escrever. Além disso, em seus escritos, eles denunciam desigualdades e injustiças sociais. Um outro aspecto similar é o fato de que os dois apresentam a educação, como favorável para a transformação dos sujeitos e para a humanização. Pois, ao se atentar às orientações Perses se tornaria um herói não por ter nascido destinado a ser, mas por meio da virtude e Pinóquio se tornaria um menino de verdade
REFERÊNCIAS
COLOMBANI, Maria Cecilia. A educação como kairós em Os Trabalhos e os Dias. Heródoto: Revista do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Antiguidade Clássica e suas Conexões Afro-asiáticas, v. 5, n. 2, p. 31-47, 2020.
MEIRA, Vanessa. Educação como um processo de humanização ou de “fantochização”: reflexões pedagógicas a partir da história de Pinóquio. Teoliterária, v. 8, n. 16, p. 390-422, 2018.
MELO, José Joaquim Pereira. A ‘Pedagogia do ser e fazer’ em Os Trabalhos e os Dias. Educação e Filosofia, p. 1273, 2024.
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